Não há lugar mais cômodo do que olhar uma situação de fora. Tudo é sempre percebido como de fácil solução. A gente sempre tem as respostas para cada ponto, nunca nada é contrário às necessidades da maioria. É fácil atender as pautas, sempre intermináveis! Neste ponto, há acordos e semelhanças, por exemplo, entre os posicionamentos de sindicalistas e dos políticos quando estão na oposição.

Na condição de servidora pública do magistério estadual do Rio Grande do Norte, desde o mês três do ano de 1990, vivi a primeira década de trabalho a acompanhar de muito perto os movimentos reivindicatórios da categoria que faço parte, participei de greves históricas até apreender sobre as muitas motivações que subjazem. Passei a lutar de outras formas por dignidade na educação pública e, conscientemente, a votar em um ou outro parlamentar de origem sindicalista que aprendi a respeitar pela trajetória e biografia. Não me arrependo.

Votei pela primeira vez em 1989, aos 18 anos, justamente para presidente da república. O meu candidato naquela eleição só foi vitorioso alguns anos depois, quando vimos a celebração da chegada dos trabalhadores ao poder. Malgrado o cenário de esperanças que foi construído e a origem do grupo político, tempos depois o Brasil assistiu a repetição dos erros do passado mesmo num governo dito de origem popular: denúncias de acordos inescrupulosos, corrupção, deslumbramentos com o poder, aparelhamento de instituições, trocas de cargos e favores, processos, operações policiais, prisões, julgamentos, penas etc e tal. Alguns dirão que desvios ocorreram em nome da governabilidade. É fato: logo ficou exposta a constatação de que não é fácil ser Governo.

Na última eleição foi a vez de os “trabalhadores” chegarem ao topo do poder no Rio Grande do Norte, uma conquista em tanto! O tempo de gestão da Governadora Fátima Bezerra ainda é muito curto para uma avaliação mais consistente, porém já é o suficiente para uma vez mais constatarmos: não é fácil ser Governo.

Ora, não deve ser fácil para a professora, agora Governadora, conciliar o discurso de décadas, inicialmente forjado na luta sindical do magistério, mais tarde no congresso nacional e recentemente em campanha eleitoral, quanto à necessidade, por exemplo, de ampliação do financiamento da educação, de valorização salarial dos profissionais, de melhor equipar as escolas… e hoje, chefe do executivo, atualizar o piso salarial do magistério de forma parcelada (objeto de críticas num passado recente),  privar 49 escolas de laboratórios de informática para economizar quatro milhões e meio num montante de 600 milhões oriundos de um empréstimo, apenas para citar dois pontos. Confesso que prefiro acreditar que a Governadora não teve acesso às informações completas sobre diminuir de 100 para 51 escolas a serem equipadas com computadores para uso por professores e estudantes e que ainda é possível corrigir, retomar. Digo isso porque a deputada estadual, deputada federal de várias legislaturas e senadora que sempre mereceu meu voto não silenciaria se fato semelhante acontecesse em outro governo.

Igual silêncio, fosse outra bandeira no poder, também não se repetiria por parte de sindicalistas do RN e de alguns colegas professores sempre muito afiados nas críticas e atuantes nas redes sociais que agora, bizarramente, sumiram ou direcionaram suas postagens inflamadas a alimentar a “guerra” com o Governo Federal, afinal, ser governo não é nada fácil.

3 comentários em “A difícil tarefa de ser Governo

  1. Belas observacoes, quando se e oposicao o discurso e um, no Governo ai vem a pratica: tem.que fazer contas pra la e pra ca.
    Falta dinheiro e ai tem que sair cortando inclusive de onde nao pode, com a esperanca de la na frente resolver aquilo que nao era para ter cortado.

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  2. Profª Claúdia, parabéns. Ratifico sua elegante análise. Permita-me compartilhar, pois tenho a percepção de que muitas pessoas precisam ler textos com essa qualidade para refletir um pouco sobre o que publicam nas redes sociais.

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