Ainda no mês de maio, quando já contávamos 60 dias de escolas fechadas, comecei a alertar quanto à importância da gestão pública planejar a Educação, de modo a evitar soluções amadoras e as improvisações por vezes tão comuns. O fato é que a pandemia da Covid-19 vem afetando, há 150 dias, os desempenhos acadêmicos de crianças, jovens e adultos. Convenhamos: é inegável que essa crise atinge, mais severamente, aqueles estudantes oriundos de famílias empobrecidas, dependentes da oferta estatal e de políticas públicas que os incluam.

Diante da exclusão digital de uma parcela significativa da população, da dispersão de quem caberia encontrar soluções e orientar as escolas de forma consistente, da predominância de propostas pedagógicas filiadas ao modelo de escola do Século XIX ou mesmo da acomodação de alguns profissionais que atuam desmotivados, sempre soube que a mediação de aprendizagens no formato não presencial seria importantíssimo, mas a rota construída para a retomada das atividades presenciais diria/dirá muito sobre reparos ou ampliação do estrago educacional que estamos imersos.

É dispensável voltar a abordar sobre a necessidade de preparação das unidades de ensino para receberem os profissionais e os estudantes em condições apropriadas de segurança sanitária. Ora, se pouco ou nada vi ser feito nas redes públicas, deve ser por limitações de minha parte porque o tempo já foi suficiente. Torço que os que me leem estejam municiados de ótimas informações que não as disponho para partilhar.

Na edição de hoje, 16 de agosto de 2020, o impresso Tribuna do Norte – CLIQUE AQUI – apresenta uma matéria com chamada de capa sobre o tema “Plano de retomada sai até 31 de agosto”. Colaborei com essa reportagem que destaca a voz oficial do Governo do Estado, representada pelo Secretário de Educação, professor Getúlio Marques. A reportagem estabelece um cotejamento entre as minhas propostas e as ideias apresentadas pelo gestor. Longe de pretender fazer reparos ao bom texto do jornalista que me ouviu, ampliarei informações subtraídas na edição, a título de colaboração ao debate.

Inicialmente quero deixar claro que a ideia de ciclo não é ruim, tanto é que o próprio Conselho Nacional de Educação (CNE) apontou nessa direção. Diante de uma possível retomada das escolas, em meados de setembro de 2020, é razoável pensarmos a estruturação de um ciclo até dezembro de 2021. Atentemos: defendo um ciclo qualitativo, voltado para reposicionar as trajetórias escolares dos estudantes no fluxo de aprendizagens, à luz de um currículo revisitado para atender as demandas de um período atípico.

O ciclo que defendo envolve dois períodos: o primeiro, sem reprovação, de setembro de 2020 a abril de 2021, ou seja, até sete meses de trabalho híbrido para fechar o ano letivo de 2020. Transcorrido um mês de férias, começaria o segundo período, de maio a dezembro de 2021, para concluir o ciclo e o ano letivo de 2021, aí sim, podendo ocorrer alguma retenção inevitável. O problema é a conceituação de ciclo que subjaz o arranjo defendido pelo Secretário que envolve uma logística burocrática, administrativa e pedagógica que desconheço ser possível a rede pública alcançar sem acumular novas demandas aos profissionais e, principalmente, mais prejuízos aos estudantes.

Fico a pensar como é que a Secretaria de Educação pensa em administrar pelo menos três questões básicas:

  • O cômputo das horas trabalhadas, de forma remota, por escolas responsáveis que, desde o dia 20 de março, mediam aprendizagens junto aos estudantes, enquanto outras permaneceram paradas ou iniciaram atividades meses depois do fechamento. Um ciclo com dois períodos seria a solução porque as escolas adequariam as férias de acordo com suas realidades, até o mês de abril.
  • Anualmente crianças ingressam na Educação Infantil. Para acomodá-las, vagas são liberadas pelas de 6 anos de idade que seguem para o Ensino Fundamental. Receber as crianças de 6 anos requer que as escolas, especialmente aquelas que ofertam apenas os anos iniciais, contem com as vagas deixadas pelas que são aprovadas para o 6º ano. Diferentemente de como ocorre no 5º ano, o currículo do 6º é trabalhado por professores especialistas nos componentes curriculares e não por professores polivalentes. Caso prospere o modelo de ciclo da Secretaria Estadual de Educação do RN, como será que vai ficar a situação do 9º ano misturado com a 1ª série do ensino médio, se as escolas municipais não ofertam o ensino médio? O bom senso nos envia, aqui, alguns recados.
  • A matéria da Tribuna do Norte menciona a formação como solução para preparar os professores para trabalharem os conteúdos de dois anos no ciclo. Como serão avaliadas as respostas práticas da formação dos professores realizada de véspera ou com o processo já em curso?

Arrisco afirmar que não será um ciclo confuso que impedirá a evasão escolar.  Experimentemos investir na empatia para com os estudantes e suas famílias, o reforço dos vínculos afetivos, a segurança no repasse das propostas pedagógicas, a execução comprometida do projeto da escola, a boa estruturação de situações de aprendizagens e de materiais para o formato de ensino híbrido, definição clara dos tempos letivos, entre outros condicionantes. Esses aspectos, sim, serão definidores no combate ao abandono e a evasão escolar.

Nessa linha,  no retorno às escolas requer lançarmos mão de instrumentos que subsidiem à avaliação diagnóstica dos estudantes, tendo em vista a elaboração de roteiros de estudos que considerem tanto as necessidades de aprendizagens individuais quanto de apoio socioemocional. Quando falo em avaliação tenho em conta a dimensão qualitativa do processo porque avaliar é inerente a toda ação planejada e isso nada tem a ver com exames que quantificam, classificam, selecionam e definem aprovados e reprovados, como teme o discurso repetido do Secretário. Avaliar é um ato amoroso que possibilita seguir adiante e fazer melhor. Examinar é um ato que pode ser excludente para muitos que implica interromper e recomeçar. Portanto, a escola que eu acredito avalia, inclui, seja ou não tempo de pandemia, seja ou não com anos letivos organizados em ciclo.

A proposta que dei publicidade no mês de maio sugeria uma coordenação de esforços dos órgãos competentes para normatizarem uma modelagem que validasse o cumprimento de um currículo essencial para o ano de 2020, composto por até 24 objetivos/conteúdos para cada área de conhecimento, aqueles que são caros ao ano ou à série cursada, a serem trabalhados de forma articulada, de preferência por meio de projetos. A mesma proposta com um currículo essencial se desenvolveria na implementação do ano letivo de 2021. A experiência de mais de 30 anos de atividades vividos em escolas públicas da rede estadual me credencia a afirmar que, ofertadas as condições, os professores darão conta de um desenho assim, carregado de lucidez e simplicidade.

2 comentários em “Um ciclo, sim, mas com dois períodos letivos

  1. Concordo plenamente . Precisamos ter um plano claro , objetivo e simples.
    E ainda tem a questão da autonomia para as escolas que começaram bem mais cedo a realizarem suas aulas remotas .
    Também é necessário aferir autonomia as escolas privadas do nosso Estado que estão a beira do precipício.
    A fala de Cláudia Santa-Rosa é muito pertinente nessa discussão , porém talvez não seja ouvida por questões politiqueiras.
    Infelizmente essa a a realidade em nosso país.

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