Estávamos no meio da manhã de quinta-feira, pós-feriado de 1° de maio. Encontro esses adolescentes [foto] lindos, cheios de vitalidade e vontade de aprender, sentadinhos a conversar, na entrada da escola onde eu trabalho, a mesma onde eles estudaram até o ano de 2018. São garotos que saíram para cursar o 6° ano em outra unidade de ensino, mas, flagrantemente, não perderam o vínculo com a anterior.

Indaguei preocupada:

_ O que vocês fazem por aqui no horário das aulas?

A resposta veio quase em coro:

_ Professora, só tivemos uma aula hoje.

Retruquei:

_Uma aula de 50 minutos? Como assim, gente?

Eles:

_As professoras faltaram. Faltou a de matemática, a de geografia…

Relataram outros detalhes do drama que vivem na escola atual, inclusive que as mães já teriam apresentado suas preocupações à direção da escola, relativas à irregularidade das aulas. Indaguei:

_ Por que vocês não vão para suas casas?

A resposta veio rápida:

_Ah, professora, não tem o que fazer em casa! A gente quer ficar aqui [na antiga escola], ir lá pra o quintal.

Especialistas se debatem para entender as razões da educação brasileira ter avançado nos anos iniciais do ensino fundamental (1° ao 5° ano) e a partir do 6° ano permanecer estagnada em taxas preocupantes de repetência que expressam a baixa proficiência dos estudantes, a se acumular pelos anos seguintes. Ora, se a escola não consegue o mínimo de regularidade no funcionamento a partir do 6° ano, não é por acaso que o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) revela resultados desprezíveis no 9° ano e na 3ª série do ensino médio. Com o passar dos anos o quadro só se agrava.

É assustador verificar a recorrência de faltas dos docentes ao trabalho. Parece ser mais comum as escolas dos anos iniciais se desdobrarem para atenuar os prejuízos de aprendizagens das crianças. Tenho vivido essa experiência onde atuo na função de coordenadora pedagógica. É inacreditável, mas já tivemos que cobrir a falta de 50% dos mestres num único dia e as ausências de um ou outro são quase diárias. Isso não pode ser normal. Não há escola, projeto e nem educação que se sustente sem a presença do professor na cena pedagógica.

Observo com preocupação o que ocorre em muitas escolas a partir do 6° ano: falta de professores, professores que faltam, escolas que fecham as portas por motivos menores, condições de aprendizagem pouco atrativas, falta de metas e de foco em resultados.

O que resta aos estudantes que tiveram uma escola razoável até o 5° ano ao se deparar com um cenário de convite ao fracasso? Como esperarmos um bom desempenho acadêmico se nem mesmo a inexpressiva carga-horária de 4 horas é cumprida?

Estudantes pedem socorro diante de uma escola cara à população e que lhes oferece uma mísera aula de 50 minutos, esperando que  aceitem com naturalidade.

11 comentários em “Estudantes de 6° ano: “hoje só tivemos uma aula”

  1. Isso é o retrato da educação que o governo que a Senhora participou deixou como lembranças.Escolas sem professores, prédios caindo e prá completar o descaso salários dos funcionários atrasados.

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  2. Isso mesmo Professora Cláudia, por este motivo fico constantemente em observação à esses educadores. Sou incansável na luta por uma educação pública de qualidade, e na maioria das vezes mal interpretada por determinadas ações em nosso Cenep. Continuemos a luta e juntos assim venceremos!! Grande abraço!!!

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  3. Lamentável! Mas não é de hoje essa realidade. O ensino fundamental anos finais apresenta um novo formato de ensino para a criança, elas passam a ter aulas com vários professores de disciplinas distintas. Muitas vezes, ainda faltam professores na rede e tbm professores que faltam por inúmeros motivos, desde os mais plausíveis até desculpas mais sem nexo. Mas o fato é que muda muito. A escola tbm precisa ter um projeto político pedagógico que dê conta minimamente dessas ausências, aqui refiro-me as ausências pontuais, mas esbarram muitas vezes na própria organização da escola,na maioria das vezes não damos conta. Resumindo enquanto a política educacional não der conta de ter professores na rede, efetivos e temporários, as lacunas continuarão existindo. Vale salientar que nos últimos anos avançamos significativamente para diminuir essa problemática, mas nunca será suficiente se não estiver consolidada uma política de contratação de professores em tempo real.

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    1. Sim, não falei que o problema é de hoje, mas é um daqueles bem primitivos que afeta a educação e que já deveria ter sido resolvido nas escolas onde há professores. A questão é ter professores e não poder contar com os mesmos porque as faltas são a regra.

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  4. Verdade professora/coordenadora, e ainda tem o disparate de ficarem em reuniões pedagógicas procurando culpados, porque aluno tal não foi alfabetizado?

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  5. Amiga, essa é a nossa realidade. Agora essa questão também passa pela questão de gestão tendo em vista que o professor que falta amparado por atestado médico ou declaração de comparecimento médico está amparado. Mas, aquele que falta por outro motivo deve repor as aulas.

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