De Norte a Sul do país há um movimento de articulação, formação e troca de experiências entre professores, bibliotecários, poetas, parlamentares, autores, livreiros, editores e outros atores sociais, tendo em vista políticas públicas de formação de leitores, a partir, sobretudo, do protagonismo das bibliotecas das escolas, bibliotecas comunitárias e bibliotecas públicas. Esses espaços, quando vivos, são reconhecidos pelo potencial de democratização do acesso à leitura.

Resgato uma parte dos registros que fiz ao prefaciar o livro “Políticas públicas da leitura, do livro e da biblioteca: o que saber para um novo fazer na escola”, das professoras Tatyana Mabel Nobre Barbosa e Claudianny Amorim Noronha, ambas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), pela pertinência para o momento.

Destaco, pois, o contributo dos professores, cada vez mais envolvidos, na última década, em distintas inciativas que tomam a leitura enquanto prática social, gestada desde as unidades escolares. Porém, um desafio permanece: ainda são muitos que enxergam a biblioteca como se fosse luxo, outros como se não tivesse a menor importância, quando deveriam percebê-la como um equipamento fundamental para garantir o direito da população de acesso à cultura escrita.

Assim, verifica-se que o arcabouço dos marcos legais e dos programas de leitura, envolve, sobretudo, a convocação para a criação de bibliotecas nas escolas, composição de acervos qualificados e formação de professores para mediarem leitura, articulando as políticas de promoção da leitura das suas escolas com os respectivos projetos político-pedagógicos. Neste sentido, o projeto de cada unidade de ensino passa a contribuir com a construção de políticas de estado, afinal, é da natureza da escola, o papel de democratizar o acesso à cultura escrita.

Diante de tantos programas, leis e decretos, cabem algumas indagações: por que será que o estado brasileiro negligencia direitos, embora os oficialize nas letras? Por que será que há tantas escolas sem bibliotecas, sem bons acervos e/ou sem profissionais que promovam a leitura? Por que o papel da biblioteca da escola é secundarizado, embora a maioria dos alunos e suas famílias tenham limitadas chances de acessarem aos livros por outras vias?

No Brasil, os indicadores educacionais, certamente, são agravados pelo déficit de bibliotecas e de projetos sistemáticos de promoção da leitura e escrita. Apesar da Lei Federal 12.244/10 estabelecer o ano de 2020 para que todas as escolas públicas e privadas do país disponham de bibliotecas, sabe-se que ainda é uma meta distante de ser alcançada, sem falar que onde elas existem, com raras exceções, ainda são organizadas em espaços improvisados, apresentam infraestrutura precária e em parte delas há reduzidas propostas de formação de leitores. É comum a carência de acervo e/ou de profissionais qualificados para fazerem a gestão do acervo, espaço e a mediação de leitura, uma realidade que, para ser alterada, requer o engajamento de muitos, os comprometidos com a garantia de direitos.

Os documentos oficiais, os programas, as leis, os materiais de formação dos professores e aqueles para leitura no contexto escolar, se consubstanciam na concepção de que ler é uma prática social e, ao mesmo tempo, ato dialógico pessoal. Ao ler, o leitor produz sentidos e, amalgamado pelo contexto em que vive, pela sua história e experiências, constrói a realidade, na relação com o texto e com os outros. Isso posto, embora se configure como tarefa das mais desafiadoras, as políticas públicas de promoção da leitura, do livro e da biblioteca se materializam, à medida em que os professores fazem a mediação de processos capazes de contribuir para o desenvolvimento de uma relação positiva das crianças, dos jovens e adultos com o texto escrito, independentemente do suporte.

O caso da leitora Ana Beatriz (11 anos) – então aluna da Escola Estadual Hegésippo Reis, localizada em Natal – é emblemático. Há seis anos ela fez uma declaração que bem ilustra o relevante papel da biblioteca: “Quando a professora pede para eu ler um livro, eu me comporto como aluna e quando venho aqui para a biblioteca, escolho um livro e leio o que eu quero, me comporto como eu mesma.” Ana Beatriz explicita a autonomia de leitora que se constrói na frequência assídua à biblioteca da escola, sem as amarras das tarefas escolares. Evidencia os efeitos de um projeto pedagógico que, efetivamente, ajuda a formar leitores. Para ela e tantos outros, bibliotecas bem cuidadas, com acervos e professores qualificados não são luxo, mas sim uma necessidade.

Segundo Samuel Augusto (9 anos), da mesma escola: “Aprendi a ler e a gostar de ler, assim: eu via a professora Evania ler aqui na biblioteca e achava muito bonito, muito mágico. Ai um dia eu cheguei para a professora, lá na sala de aula, e disse assim: professora, eu não quero mais ler só pelas figuras, eu quero ler do jeito que a professora Evania lê pra gente. Eu quero ler pelas palavras. Aí eu comecei a me esforçar para descobrir o que as palavras estavam dizendo e a professora me ajudou, e eu aprendi a ler as palavras.”

O menino Samuel Augusto explicitou uma proposta de biblioteca que jamais pode ser compreendida como superior e tampouco inferior ao trabalho com o livro e a leitura que é implementado nas salas de aula. Ambas se complementam e dialogam na tarefa de democratizar o acesso à cultura escrita. Samuel jogou luzes sobre a relevância do trabalho qualificado que é desenvolvido pelo professor mediador de leitura, o docente que atua, de forma competente, viva e criativa na biblioteca da escola. Ele fala da figura da professora que faz a diferença na vida dos estudantes, por meio do seu ofício, exercido num espaço pedagógico legítimo: a biblioteca.

Foi no rastro de conquistas como as de Ana Beatriz e Samuel Augusto que o Governador do Estado do Rio Grande do Norte, Robinson Faria, esta semana, em público, nos desafiou a implementar a leitura literária em todas as escolas públicas estaduais, compromissos nossos – dele, então deputado, autor do projeto que deu origem a Lei Estadual Nº 9.169/09 e meu, que, pelo Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE), minutei o citado projeto. Ao trabalho!

Artigo publicado em junho de 2016.

Um comentário em “Construir um Rio Grande do Norte de leitores

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